“O fado não tem sido senão um conjunto de transgressões”

As questões da métrica, a “escola do CD”, as coscuvilhices e reflexões de quem conhece o fado a fundo: de tudo se falou e cantou na primeira tertúlia do concurso Há Fado na Mouraria

Não foi difícil a tarefa do anfitrião Ruca Fernandes. Depois de abrir o palco, acompanhado por Bruno Sangareau (guitarra portuguesa) e Nuno Estevens (viola), o fadista, padrinho da Associação Renovar a Mouraria e membro da organização do concurso Há Fado na Mouraria – Prémio Maria Severa, limitou-se a deixar correr a noite, que foi pedindo ora conversa ora fado, ora os dois misturados.

À dupla de instrumentistas juntaram-se João Nogueira (viola-baixo) e João Ferreira Alves (viola), e 10 fadistas deram voz a alguns dos mais marcantes poetas do Fado, de Camões a Frederico de Brito, João Black e David Mourão-Ferreira, de Amália a Gabriel de Oliveira, de Pedro Homem de Melo a José Luís Gordo. No conjunto, sem combinar nada, houve sobeja Mouraria, passada e presente.

Mas também se estrearam versos, como os de “As Manas e o Marquês”, poema brejeiro em quintilhas que João Ferraz ofereceu ao Banco de Letras Inéditas (BLI) criado pela organização do concurso para facilitar o acesso dos concorrentes a poemas novos (futuros clássicos do Fado!).

Joao Ferraz interpretando "Parem de brincar com o Fado" e os convidados Jose Manuel Osorio e Daniel Gouveia

Habitual da Tasca do Jaime, à Graça, e de outras emblemáticas assembleias fadistas, João Ferraz pegou no fio do fado humorístico com “Parem de brincar com o fado”, outro tema de sua autoria, e puxou-o até à gargalhada geral. É “um recado que dou a todos os que dizem que o fado não é português”, resumiu, antes de passar a um Gabriel de Oliveira bem gingado. No que respeita à polémica das origens do fado, sao sempre bem-vindas umas estrofes jocosas para conciliar os contrários.

Dizia Daniel Gouveia, fadista e estudioso do assunto – autor da obra Ao Fado tudo se Canta? – que o fado não é dado a grandes extroversões e manifestações de alegria. Referia-se, não a este divertimento verrinoso – que existe, e até em pouca dose, num certo fado, e serve para afrontar os poderosos e esconjurar os males da vida -, mas de outra alegria, alheia ao fado, que “agora se usa muito, a pretexto das lógicas de mercado e das grandes audiências”.

Quando depois pediu a música do Pedro Rodrigues para cantar um poema de Artur Soares Pereira, hoje desconhecido mas outrora cantado, por exemplo, pelo Frutuoso França, e o guitarrista se dispôs a fazer uma introdução diferente, uma vez que se repetia a música, Daniel Gouveia corrigiu: “que uma das vantagens do fado é que se pode ouvir a mesma música a noite inteira, a letra é diferente, as voltas são diferentes”. E não é só teoria, foi prática do Café Luso, há muitos anos, as noites temáticas: “a Noite do Fado Menor, a Noite do Fado Corrido, e por aí fora”.

Alice Magina, futura concorrente, e Jose Manuel Osorio acompanhado por quarteto de cordas espontaneo

Assim foi falando, entre fados, daquilo e disto: de o Fado ser “a dança das palavras, e não o music hall”; da geração que aprende com o CD e não vai aos fados; da importância de ler os poemas no papel para os conhecer; das diferentes funções da viola e da guitarra, sendo a primeira a harmonia, o tempo, a disciplina, a orquestra, e a segunda o par da voz, do improviso, da alma do fadista; que “a inovação no fado foi sempre um tema melindroso mas o fado não tem sido outra coisa senão um conjunto de transgressões”.

O outro convidado desta tertúlia, José Manuel Osório, fadista, estudioso do Fado e consultor do concurso, foi responsável por mais um momento alto, quando aceitou cantar o Fado da Azenha e o Fado da Meia-Laranja.

O resto aconteceu na cumplicidade das conversas, e aí ficará. Felizmente há mais no dia 11 de Setembro, no mesmo local à mesma hora, com mais poemas inéditos e convidados a anunciar.

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